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UM DIA COMUM. OU NÃO! - Por Juliano Azevedo

Enrolou uns 15 minutos, sentado na cadeira ao lado, que era usada como suporte para roupas e travesseiros, auxiliar para calçar os sapatos.

JULIANO AZEVEDO

JULIANO AZEVEDOFilho, neto, irmão, amigo. Mineiro, cosmopolita, viajante, turista. Urbano da fazenda. Da roça. Esotérico de fé espiritualista. Romântico, pensador, político, cidadão. Jornalista, professor universitário, publicitário. Mestre em Estudos Culturais. Amante da televisão, de séries, de livros, de guias de turismo. Sou assim: um sujeito que se veste de diferentes formas, que ouve os mesmos discos, mas curte todos os gêneros, que possui heróis incomuns. Sou vários Uniformes, sou Juliano, o escritor.

15/11/2019 21h24
Por: JACKSON SILVA

Acordou cedo, fora do horário normal, pois um compromisso o esperava logo em seu dia de folga. Cinco da manhã, a cama o expulsou após o grito estridente do despertador do celular. Enrolou uns 15 minutos, sentado na cadeira ao lado, que era usada como suporte para roupas e travesseiros, auxiliar para calçar os sapatos.

Café, banho, uma lição de francês no Duolingo, uns likes no Instagram, uma leitura rápida nas notícias que pipocavam nas notificações do celular. Jogou água nas suculentas, conversou com elas, lavou as vasilhas sujas esquecidas na pia desde o último jantar. Domingo ou segunda? A memória falhou por causa do sono provocativo em vários bocejos. Na varanda, um vento anunciava frio, mas as poucas nuvens indicavam calor e mormaço. Trocou a camisa cinza por uma azul com grafismos.

Na cabeça repetia as palavras novas: chat, noir, femme, bonjour. Ficou rindo em frente ao espelho, fazendo o biquinho do idioma mais romântico do planeta. Na caixa de som, a playlist tocava Jenifer, cantora conhecida entre os franceses. Ele dublava a letra sem entender nenhuma palavra. Riu mais alto, pensando que a música poderia conter palavrões que algum vizinho conseguisse traduzir. Afinal, o som lembrava alguns xingamentos portugueses. E o sol ainda não aparecia naquele dia estranho. Certamente, acordou a vizinhança com a altura da música.

Fez uma foto no espelho para postar no Facebook. Procurou memórias na galeria de fotos do telefone. Quinta, data de TBT. Nostalgia. Publicou uma imagem que revelava sete tons de azul de uma praia do nordeste brasileiro. Pensou, pensou, pensou. Não se recordava de onde era. Na legenda, generalizou: “por aí em algum canto da cidade” – trocadilho com Daniela Mercury. Hashtag liberdade. Hashtag sol, areia e mar. Hashtag partiu mergulho. Quis trocar os sapatos por chinelos, a calça por uma sunga, a camisa manga longa por um peito nu. Pensou em pés descalços balançando no ritmo do ir e vir das ondas saudosas. Diante do dilema, agradeceu por não ter que usar gravatas.

O Uber já sinalizava proximidade e ele ainda nem havia escovado os dentes. Escolheu uns óculos da cor da camisa, apenas por coincidência da lista cromática da vida. Aro azul. Quis levar guarda-chuva, um casaquinho. Saiu só com a mochila preparada na noite anterior com os objetos necessários para a reunião de negócios. Lembrou-se de uma canção: “meu escritório é na praia, estou sempre na área, mas eu não sou daquela laia não. Deixe viver…” Pin. Apitou o aparelho sinalizando a chegada do motorista já na portaria.

Antes de sair de casa, abriu o oráculo de cartas de mensagens para serem lidas diariamente. Cada dia uma lição, um pensamento, uma provocação. Naquela manhã de quinta, todos os acontecimentos estavam sincrônicos: “Por que você permanece na prisão quando a porta está completamente aberta? Rumi”.

Antes de decidir o que responder, seguiu para sua viagem rumo ao trabalho. No entanto, os devaneios não saíam da cabeça.

Paz e Luz.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal.
E-mail: [email protected]
Instagram: @julianoazevedo

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