Web Rádio Cidade Jovem
3 anos
Pizzaria
COLUNA

SOBRE A MILITARIZAÇÃO DAS ESCOLAS

POR ANANIAS E. DE OLIVEIRA

Ananias E. de Oliveira

Ananias E. de OliveiraTenho 38 anos, formado em Letras (Português/Espanhol) pela Universidade de São Paulo, Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba e e Autor do livro de poesia Olhos.

07/10/2019 20h31
Por: Redação JKR Notícias
FOTO: REPRODUÇÃO
FOTO: REPRODUÇÃO

Já que está na onda do dia, vamos falar um pouco sobre a militarização das escolas, e como sou professor, é mister eu ter minha opinião e convidar o leitor a ter a sua também.

Já adianto que sou contra e vou expor os motivos.

Quando assistimos a vídeos de tudo o que acontece nas escolas ficamos estarrecidos e com razão, eu mesmo, nos meus 13 anos de docência já vi coisas absurdas, mas mesmo assim não acho que militarização é uma solução.

Quando recebemos alunos na nossa frente recebemos histórias de vidas carregadas e marcadas por sofrimentos sociais graves como falta de atendimento nos hospitais, violência nas comunidades etc. Já trabalhei em uma comunidade muito pobre e vi de perto o que essas pessoas passam, quem não viu tal situação se acha no direito de dar opiniões absurdas. Um aluno com problema é, na verdade, a voz de muitas pessoas que passam pelos mesmos problemas que ele, só que ele ainda nem sabe expressar tais problemas, mas quer dizer que se nasceu pobre tem que ir necessariamente para o mundo do crime? Claro que não, mas veja bem, você fica muito mais vulnerável, muito mais mesmo.

Na verdade, o que tem que ser feito é algo muito mais estrutural porque exigir do professor corrigir tais problemas é algo hercúleo, realmente impossível, jogar a culpa nos pais também não vai resolver, pois se você mora em uma metrópole como São Paulo você sabe da realidade, há pais que saem bem cedo e chegam muito tarde, e se não forem ao trabalho o perde sem dó, fora o salário miserável que recebem. Há algo na própria estrutura social que precisa ser revisto e tratado, o próprio ser humano precisa ser revisto nas suas estruturas básicas, é muito fácil ver um aluno agredindo o professor e dizer frases feitas como: “também o professor não tem postura”, “os pais não têm pulso firme” etc.

É claro que também não iremos resolver todas as situações, e nem é isso o que estou pregando aqui, até porque crimes são vistos em países muito mais desenvolvidos que o nosso, mas convenhamos, lá os índices são bem menores.

Colocar a solução na militarização é jogar, mais uma vez a culpa no trabalho do professor, esse profissional que já anda tão machucado, esse profissional que recebe um jovem e tem a “pequena” incumbência de formá-lo para a vida, mas não nos esqueçamos que para formá-lo para a vida não é prerrogativa somente do professor, e de toda uma estrutura básica necessária para isso, o professor nem uma escola com boa estrutura costuma ter para que possa dar conta de tal jovem. Enfim, precisamos nos tratar melhor, precisamos ter hospitais, escolas, precisamos nos tratar como seres humanos, não como algo que só funciona no grito.

Militar entende de assuntos militares, professor de coisas de professor, o militar vai no máximo fazer o aluno ficar calado, só que se calarmos o aluno a tal ponto de termos silêncio absoluto na escola, não saberemos quais são os seus anseios, o que querem para o futuro, e penso que formar jovens não é somente deixar o professor falar, e sim, ouvir anseios e necessidades daqueles que serão os protagonistas do futuro.

Educação não se faz com silêncio, se faz com escuta, e que fique claro que acho sim que há momentos em que temos que ser duros com os alunos.

Se nós, professores que passamos uma vida estudando os assuntos que vamos passar em sala de aula, ainda estudamos filosofia da educação, psicologia, metodologia etc., ainda falhamos na nossa prática docente, imagina alguém que não passou por tanto estudo?

Para terminar, o que precisamos não é de medidas simplórias, porque esconde todo um fundo problemático por trás, daqueles que realmente têm a culpa, daqueles não estão nas escolas para resolver os problemas reais, é precisa estar nelas, é preciso dar aulas, é preciso assistir às aulas, é preciso ser aluno, professor, comunidade escolar para entender. Todos acham que têm opinião, mas que possamos refletir um pouco melhor. Como professor também fico indignado quando vejo cenas de terror nas escolas e acho que em alguns casos deve haver punições rigorosas, mas daí é preciso partir para um questionamento das estruturas sociais para evitar que tais casos aconteçam, até porque por trás de tais casos há vozes que precisam ser ouvidas.

Ananias E. de Oliveira

formado em Letras (Português/Espanhol) pela Universidade de São Paulo,

Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba e Autor do livro de poesia Olhos.

E- mail: [email protected]

Facebook: www.facebook.com/professorananias

Instagram: @prof.ananias

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.